Discurso de Tomada de Posse 2017 - Presidente Raquel Bento

24 Janeiro 2017

Minhas amigas e meus amigos,

Não poderia começar esta intervenção de nenhuma outra forma que não a de sublinhar a importância crucial da interligação entre a cidade e a universidade. Quem anda pelas ruas estreitas e inclinadas da Covilhã não escapa à Universidade da Beira Interior. São quase 7000 estudantes e 1000 professores e auxiliares de várias partes do país.

A UBI é um polo de desenvolvimento, inovação e fixação de jovens no concelho e na região. É a instituição pública mais importante da cidade e deve ser apoiada e auxiliada no cumprimento das suas funções.

São 7000 estudantes. 7000 vontades e personalidades distintas a serem representadas por uma única organização. Não é, nem será fácil. Requer capacidade de diálogo, proximidade e aceitação das críticas. Liderar esta Associação Académica requer muita dedicação, abertura e capacidade para estabelecer consensos, porque a liderança é uma ação e não apenas uma posição.

A AAUBI representa uma população superior à de muitos concelhos do nosso país. Isso não pode ser tratado com leviandade. A AAUBI não pode demitir-se das suas funções e deve assumir a responsabilidade que tem em ser uma das maiores associações representativas de juventude de todo o país.

Precisamos de estar na vanguarda das discussões políticas sobre Ensino Superior. Acreditamos que a Associação Académica não pode deixar de intervir e de se fazer representar junto do Movimento Associativo Nacional e órgãos de decisão. A AAUBI deve ter uma palavra a dizer sobre as decisões mais importantes do nosso país, como aconteceu no último ENDA, em Coimbra, onde se debateram temas como a congelamento do valor das propinas, a regulamentação do regime de prescrições, o financiamento das residências universitárias e o alargamento do prazo de candidaturas ao Programa +Superior.

Noutras palavras, tratando-se do órgão de representação estudantil por excelência, a AAUBI deve configurar-se como a voz dos interesses dos estudantes da Universidade. Hoje, mais do que nunca, é necessária uma Associação Académica que possa desempenhar as suas funções de forma unida, profícua e consequente; uma Associação que, através das suas ações, mereça a legitimidade e a confiança contínua de todos alunos.

Foi por desejarmos uma estrutura mais inclusiva, que saiba ouvir e respeitar as diferenças interpessoais, que aceitámos o desafio que inicia hoje. A equipa que tenho a honra de liderar agrega dezenas de alunos, que, de uma forma ou de outra, se têm destacado na vida associativa e académica. Juntámos uma equipa que concilia experiência e inovação com irreverência e determinação – e, a este propósito, quero agradecer a todos os estudantes da nossa academia. Sinto-me muito orgulhosa por termos sido o caso de lista única mais votada desde que há memória. Sinto a confiança que nos depositaram ao perceber que reduzimos em muito a abstenção e a quantidade de votos em branco. Sinto o peso da responsabilidade que temos em fazer Mais e Melhor. Só desta forma podemos corresponder às expectativas daqueles que em nós acreditaram e honrar o legado dos que à Casa Azul se dedicaram.

O futuro de Portugal reside no Ensino Superior. É nas universidades que o investimento se tem traduzido em incrementos mais significativos para as pessoas. Porém, os últimos anos foram marcados por alterações significativas, quer a nível curricular, quer a nível financeiro. A nossa Universidade não foi exceção. Os profundos cortes ou atrasos no financiamento aplicado ao orçamento das Instituições de Ensino Superior colocaram a Academia numa posição de grande fragilidade – condição que, associada à contração do rendimento das famílias, potenciou a reemergência de um dos mais perigosos fenómenos: o abandono escolar.

O combate ao abandono escolar é um dos caminhos mais importantes no esforço pelo aumento da qualificação dos portugueses. A Estratégia Europa 2020 determina a obrigatoriedade de Portugal atingir, no ano de 2020, a percentagem de 40% de diplomados entre os 30 e os 34 anos. A evolução positiva que se registou permitiu um acréscimo de 26,7% diplomados em 2011, para 31,9% em 2015 - no entanto, valores ainda inferiores à média europeia: 38,7%.

O orçamento das Instituições de Ensino Superior também nos preocupa. Como nos disse Roosevelt, que também governou em crise: “a educação é a última despesa sobre a qual os Estados deveriam estar disponíveis para poupar”. O subfinanciamento crónico da nossa academia coloca em risco o caminho de ascensão que temos percorrido ao longo das últimas décadas, quando, contrariamente ao que dotação recebida parece transparecer, a UBI têm superado todas as adversidades e, este ano, até integrou um dos rankings das melhores universidades do mundo.

Enquanto a fórmula de financiamento tiver em conta o “historial” das universidades, a UBI nunca será justamente avaliada. Como diria John F. Kennedy: “Todos nós temos talentos diferentes, mas todos nós gostaríamos de ter iguais oportunidades para desenvolver os nossos talentos”. Por esta razão, defendemos veemente a revisão do modelo de financiamento das Instituições de Ensino Superior. A evolução positiva que tivemos não pode ser negligenciada. Desde o Instituto Politécnico da Covilhã, ao Instituto Universitário da Beira Interior e, hoje, à Universidade da Beira Interior, provámos que a Interioridade também pode ser, sobretudo, uma oportunidade.

Não existem universidades sem estudantes. A academia serve para formar e para preparar. Por isso, é também hora de por termo à subvalorização do papel discente. É hora de tornar as universidades mais democráticas. É hora de alterar o Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior (RJIES). Não podemos ter quase 7000 estudantes para 1000 professores e auxiliares na UBI, quando, no Conselho Geral, os alunos têm 5 representantes, face a 10 docentes e 1 funcionário. Exigimos, no mínimo, igualdade de poder no órgão máximo da Instituição. Exigimos respeito e democracia.

Mas não é só a nível nacional que temos exigências.

Temos dois apelos muito importantes para fazer aos nossos dois próximos intervenientes.

Prof. Dr. Mário Raposo, citando o nosso Magnífico Reitor: “a UBI coloca a Covilhã ao mesmo ritmo da academia: boémia no início do ano, buliçosa em tempo de aulas, tensa na época de exames”. São estas as três fases do ano que marcam a universidade e a cidade. Por isso, Sr. Vice-Reitor, solicitamos que ajudem os alunos a disfrutar destas três etapas. Solicitamos que devolvam os dias de férias que os estudantes tinham durante a semana da Receção ao Caloiro!

Compreendemos que existem recomendações para que os professores não marquem avaliações nessa semana. Mas convém relembrar que nem todos os docentes cumprem essa recomendação e que muitos estudantes se veem limitados na dita primeira época do ano porque têm frequências, apresentações ou entregas de trabalhos.

Compreendemos também o argumento de que a reitoria quer manter os estudantes na cidade durante essa semana. Compreendemos o receio que têm de que os estudantes, com uma semana livre, vão passar “férias” a casa. Mas isso não acontecerá. Confiem na Associação Académica. Não deixaremos os estudantes sair da cidade. Teremos atividades pensadas para eles e direcionadas ao seu gosto. Isto, porque, se estamos cá para fazer exigências, também estaremos cá para apoiar a execução das mesmas, tanto junto da reitoria, como do Conselho Geral. Quando ouvidos, nunca deixaremos ninguém sozinho. Caminharemos lado a lado na defesa da nossa academia, sempre na defesa de quem representamos.

Em segundo lugar, gostaria de lançar um desafio ao Sr. Presidente da Câmara Municipal.

Dr. Vítor Pereira, a Associação Académica não defende apenas a Universidade, mas também a Cidade. É verdade que a Covilhã exporta mais do que importa. É um facto que nos deve orgulhar. Mas, além de importante, não nos devemos focar apenas em ter uma balança comercial positiva. Devemos também inverter a balança demográfica negativa.

Quem vive na Covilhã, sabe o “deserto” que paira no Verão, altura em que não temos estudantes na cidade. Precisamos de encontrar uma forma de fixar os alunos depois de concluírem os estudos. Precisamos de arranjar uma forma para articular o meio empresarial, territorial e académico, ligando a universidade, a cidade e as empresas na criação de sinergias benéficas para todos. A Covilhã não pode ser um local de passagem, tem de ser um local para viver.

Consideramos que essa deverá ser a sua função enquanto Presidente de uma cidade-universitária e esse é o desafio que a Associação Académica lhe deixa aqui hoje. Um desafio sério e importante, mas para cuja prossecução disponibilizamos todos os nossos esforços e apoio.

E, se não pude começar esta intervenção de outra forma que não pela referência à interligação entre a cidade a universidade, não posso terminar de outra que não pelo agradecimento àqueles que, não só esta universidade, mas também esta cidade me trouxe.

À minha família, que todo o agradecimento e pedidos de desculpas pelas ausências será pouco, mas cujo apoio sei que será constante e incondicional, como foi em todo este percurso. Sei que continuarão a apoiar as minha escolhas e decisões.

À minha casa, que me ensinou o que é o Associativismo. Obrigado ao UBIPharma e às pessoas que fizeram do Núcleo aquilo que é hoje.

A toda a minha equipa, por terem aceite este desafio, com as dificuldades e riscos associados. Este pouco tempo de convivência já me permite sentir orgulho em dizer que aquilo que nos une é mais forte do que o que nos separa.

Sabemos que o desafio é grande, mas acredito que a nossa vontade em defender os interesses dos estudantes será maior, porque queremos uma Associação Académica sem medo de errar, capaz de assumir desafios e que projeta um futuro, porque o presente é a nossa oportunidade de mudar o futuro.

Movimentemos essa Mudança hoje, aqui e agora. Todos juntos.

Muito obrigado pela vossa presença.

Viva à Associação Académica! Viva à Universidade da Beira Interior! Viva à Covilhã!